Roteiro das Pontes
A Ponte do Bôco, sobre o Rio Cávado, localiza-se no lugar de Aldeia, na freguesia de Parada de Bouro. Foi construída em 1908 e é a primeira ponte a ser erguida em betão armado no Distrito de Braga. De um só arco e com 33 metros de cumprimentos, é considerada uma das mais antigas pontes de betão armado no nosso país, e uma das mais velhas da Europa. Foi projetada pelo Arquiteto M. Sebastião Lopes e construída pela empresa dos engenheiros construtores Moreira de Sá & Malevez, concessionários em Portugal do sistema patenteado Hennebique de 1882.
Em Frades, lugar da freguesia de Ruivães, o vigor da natureza é quebrado pela secular Ponte da Misarela que se eleva a mais de 15 metros sobre o leito do rio Rabagão. A vegetação densa, as cascatas vertiginosas, as numerosas marmitas de gigante e as imponentes formações rochosas moldadas pela força da água que corre até ao Cávado, apresentam uma paisagem natural de cortar a respiração.
Edificada na Idade Media, no fundo de um desfiladeiro mas em completa sintonia com a natureza envolvente, a Ponte da Misarela exibe um arco com mais de 10 metros solidamente alicerçado nas escarpas graníticas. De estimado valor patrimonial, esta obra arquitetónica arrojada está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958.
Este monumento está ligado a várias crenças pagãs e lendas centenárias que têm sobrevivido a passagem do tempo.
Popularmente conhecida como “Ponte do Diabo”, esta construção está associada a uma lenda que afirmava ter sido erguida pelo diabo. Em tempos muito antigos, diz a narrativa, um criminoso em fuga, perseguido pelas autoridades, ao chegar à margem do rio Rabagão, desesperado, invocou o diabo, pedindo-lhe ajuda para transpor o rio e passar a salvo para a outra margem. Como contrapartida, o criminoso terá oferecido a própria alma ao diabo. Ora, um antigo e popular ditado afirma que, tendo oportunidade, “ o diabo pega com visco”. Aceitando o facto, o mafarrico fez aparecer uma ponte, ordenando ao criminoso que a atravessasse sem olhar para trás. Chegado à outra margem do rio, o diabo fez desaparecer a ponte, ajudando o criminoso a escapar às autoridades.
Passados alguns anos, em certo dia a morte bateu à porta do antigo criminoso, agora moribundo, anunciando-lhe: “Venho-te buscar, ó alma do diabo”. Dizendo-se arrependido, o aterrorizado homem pediu ajuda, mandando chamar um padre com fama de santo para lhe dar os últimos sacramentos e quebrar o velho pacto com o diabo. Informado da súplica, o zeloso padre, depois de meter o ritual cristão no bolso e a água benta no hissope, monta a cavalo e sai velozmente em auxílio do arrependido. No entanto, ao chegar à margem do rio constata que não havia passagem no local onde o diabo, em tempos, teria feito figurar uma ponte.
Preocupado perante a dificuldade mas com pressa em cumprir a missão de que ia imbuído, o diligente padre, erguendo os braços ao alto e olhando para o céu escuro, pede ajuda divina e profere: “ Por Deus das águas puras do Rabagão ou pelo diabo das pedras negras, apareça aqui uma ponte de pedra”. Nisto, avista a escura silhueta do diabo na outra margem e, destemido, pergunta: “És tu, Satanás?”. Não obtendo resposta, o padre, ganhando nova coragem, sem hesitar, vocifera: “Vade retro!”. De seguida, pegando no hissope, aspergiu em direção à outra margem a água benta que trazia consigo e, quase de imediato, vê surgir uma ponte em arco assente nas enormes rochas das margens, materializando a curva formada pela água sagrada lançada sobre o rio. Ao vislumbrar tamanho feito, o humilde padre faz o sinal da cruz e pronuncia as palavras do exorcismo ao mesmo tempo que vai ouvindo os rugidos bestiais de Lúcifer. A negritude atmosférica é invadida por um enorme cheiro a enxofre que paira no ar e, nisto, o padre ouve um grande estrondo no fundo das águas do Rabagão. Mais aliviado, em direção às águas profundas, grita: “ Arrebenta tu diabo, que esta alma não é tua”.
Após agradecer o milagre, seguiu caminho e socorreu com êxito o moribundo arrependido. Desde então, a Ponte da Misarela ficou com a fama de ponte mágica, ponte do diabo ou ponte da virtude.
De acordo com o Pe. José Carlos Alves Vieira, “Esta villa era atravessada por uma via romana que, passando pela Misarella, local onde existe uma ponte da mesma construção, levava a Braga. Na Misarella, limites d’esta freguesia de Ruivães, existe uma rocha a que a acção das aguas imprimiu a fórma de pulpito, conhecido entre o vulgo pelo designativo de púlpito do diabo. O povo, sempre disposto e affecto a preconceitos, tem a conficção de que o demónio préga al i á meia noite.
Tambem é crença geral que, quando as mulheres soffrem abortos consecutivos, se evitam estes baptisando os filhos no ventre da mãe, durante o periodo da gravidez.
Baptismo consisteno seguinte: A futura futura mãe, ás primeiras horas da madrugada, ocupa a extremidade da ponte que fica do lado do logar em que habita; ahi espera qualquer viandante que passe, em sentido contrario. Este vae colher agua ao rio que em baixo corre e, fazendo uma cruz com a mão direita, procede ao baptismo do feto germinativo e fica sendo seu padrinho” e proferiam a seguinte lengalenga:
Eu te baptizo pelo poder de Deus
e da Virgem Maria!
Padre-Nosso e Avé-Maria!
Se fores meninha (menina)
Serás Senhorinha;
Se fores rapaz
Serás Gervás (Gervásio).
Para além do postal turístico aqui apresentado, devemos relembrar que a Ponte da Misarela foi testemunho de um marco importante da História de Portugal, pois foi palco de um combate sangrento entre o exército de Napoleão e as tropas luso-britânicas aquando da segunda Invasão Francesa.
Em maio de 1809, o exército de Soult, instalado no Porto e sob uma ameaça de ataque iminente por parte das tropas aliadas lideradas pelo General Wellesley, decide abandonar a cidade e fugir em direção a Espanha, levando apenas os seus homens, alguns animais e o essencial à sua sobrevivência. Com os principais itinerários cortados de forma a barrar a marcha das tropas francesas, Soult opta pelos caminhos sinuosos da Serra da Cabreira para chegar a Montalegre. A 15 de maio, os invasores entram em Salamonde e a 16 são acossados na Ponte da Misarela, lugar onde muitos soldados franceses perderam a vida de forma trágica, tal como descreve Carlos de Azeredo na sua obra “Aqui não passaram – O erro fatal de Napoleão”: Ao ouvir-se na retaguarda o troar da artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas caíram no pânico. Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros (…) na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação, lançavam fora armas e equipamento; os pobres animais famintos ou desferrados eram abatidos ou atirados pelas ravinas, (…) muitos homens na ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão.”
Desse facto há ecos no cancioneiro popular:
“Chorai meninas de França,
Chorai por vossos maridos,
Na ponte da Misarela
eram mais mortos que vivos!”
A ponte da Misarela e a sua envolvente natural são sem dúvida um local mítico, mágico e histórico.
Coordenadas: 41.692050, -8.019597
Ponte sobre o Rio Ave com cerca de 23,50 metros de comprimento e 2,50 metros de largura média. Esta ponte revela padrões construtivos de tradição românica e data dos finais da Idade Média.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho
41°36’10″N 8°02’53”
Ponte sobre o Rio Lage com cerca de 6 metros de comprimento, largura inferior a 3 metros e mais de 3 metros de altura. Esta ponte, relacionável com a rede de comunicações vicinais de Campos, apresenta uma estereotipada “estética medieval”, apesar das suas características construtivas serem mais frequentes em época moderna.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho
A Ponte de Rês e o Caminho de Ruivães, no concelho de Vieira do Minho, foram classificados como conjunto de interesse público pelo “interesse como testemunho notável de vivências, valor estético e memória coletiva que reflete”.
A Ponte da Rês, Ponte Velha ou Ponte de Ruivães, como é conhecida, situa-se sobre a Ribeira do Saltadouro, fazendo a ligação entre Salamonde e Ruivães. Integrava o traçado da antiga via que ligava Braga-Chaves.
É uma ponte com um só arco de volta perfeita, solidamente alicerçado nas margens através de arranques de paramentos divergentes, em boa cantaria granítica de aparelho pseudo-isódomo. Tem tabuleiro horizontal com guardas graníticas e pavimento lajeado, no qual se observam as marcas dos rodados dos carros.
Admitindo-se que possa ter conhecido algumas reparações, como sugere o tabuleiro horizontal, esta ponte revela características construtivas plenamente medievais, evidenciadas pelas siglas que ostenta no intradorso do arco, as quais sugerem uma cronologia em torno dos séculos XIII-XIV.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho, p. 123
Ponte sobre o rio Ave, de um só arco em cantaria granítica, assente diretamente nas margens rochosas e contido por paramentos em alvenaria irregular granítica.
O tabuleiro, com cerca de 19 metros de comprimento e 3 metros de largura, ligeiramente em cavalete, é pavimentado com lajes graníticas, onde se observam marcas de rodados e possui guardas também graníticas. Na parte interior do arco observam-se os encaixes utilizados para o cimbre.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho, p. 109
Ponte sobre o rio Ave, de um só arco de cantaria granítica, assente em sapatas graníticas encaixadas nas margens rochosas. Com cerca de 24 metros de comprimento e mais de 3 metros de largura, a ligação às margens faz-se através de paramentos de alvenaria granítica irregular, suportando um tabuleiro ligeiramente em cavalete, pavimentado com cubos graníticos. As guardas são em granito reforçadas com outras em ferro. No interior do arco observam-se os entalhes para os cimbres.
Nas memorias de 1758, refere-se a existência, aqui em São Pedro, de uma ponte de pau, pelo que esta ponte tem uma cronologia posterior.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho, P.110
Ponte sobre a ribeira de Vilar Chão, com um arco de cantaria granítica contido por paramentos de mamposteria grosseira, que ligam as margens através de um tabuleiro com cerca de 10 metros de comprimento e 2,40 metros de largura, ligeiramente em cavalete e pavimentado com lajes graníticas. As guardas, também em granito, foram parcialmente derrubadas pelas últimas cheias. Não aparece referida nas “Memorias paroquiais”, pelo que será posterior a 1758.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho, P.166
Ponte sobre a ribeira de Cantelães, com um arco de volta perfeita que vence um vão aproximado de 5 metros.
O arco, com aro moldurado, é de cantaria granítica bem afeiçoada, assentando diretamente na rocha, junto às margens da ribeira, onde se alicerçam os paramentos laterais que suportam o tabuleiro horizontal, com cerca de 9 metros de comprimento e cerca de 3 metros de largura, com guardas em granito e ferro a montante e apenas em ferro a jusante. Está pavimentado com calçada portuguesa.
Esta ponte é posterior a 1758, pois nessa data registou-se apenas a existência de uma ponte de pau.
Fontes, L., Roriz, A. Património Arqueológico e Arquitectónico de Vieira do Minho, P. 60
